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1 - Virando a página


Acho que, como mais uma brasileira no meio da crise econômica, estourei minha conta do banco e estarei devendo milhões em pouco tempo, caso não resolva tomar uma atitude séria em minha vida.
Não, a atitude séria não é parar de gastar, porque daí eu teria que parar de comer,  não andar de ônibus, coisas triviais que, pouco ou não, levam minha mísera pensão para o infinito e além, seja lá onde for isso. Estou falando de arranjar um emprego, porque de pensão se vive dona de pensionato, coisa que não sou e nem levo jeito para isso.
Longe de ser viúva, sou divorciada, passando dos cinquenta, nunca trabalhei para ganhar o pão nosso – na verdade, trabalhei e muito, só que isso não conta porque ser mãe e dona-de-casa não é profissão registrada em carteira. Também fui guia turística, orientadora pedagógica dos filhos, cozinheira de primeira, companheira nota mil. Essas coisas que ninguém percebe.
Depois da separação o bicho pega, porque a primeira coisa que vem à cabeça é: como vou sobreviver? Aliás, todo mundo vem perguntar isso, porque você não tem qualificação alguma, mesmo tendo feito “trocentos” cursos e nenhum que pudesse lhe render alguns trocados, porque ter mais de 40 anos já pesa, imagina 50! Então, o que resta é me contentar com uma pensão mínima, ficar aliviada porque os filhos estão bem criados e longe de casa vivendo suas vidas, e torcer para que um dia, num sonho de milagres, a resposta para a vida seja anunciada entre cânticos angelicais e trombetas.
Claro, esqueça o sonho das grandes revelações. Milagres só para os santos sofredores que morreram de alguma forma horrível. A minha sofrência tem limite e este não vai além de deixar de tomar café uma tarde ou outra. Duvido que tenha uma santa que padeceu por deixar de tomar café por uma ou duas tardes intercaladas por dez dias. Com isso, descarto o meu papel de santa e de revelações divinas.
Entretanto! Sim, ele existe! Pensei em conversar com o gerente do banco.
Só o pensamento já é uma tortura. Deve valer como prática de santificação. Eu tenho fé nisso. Como também, valendo mais pontos ainda, conversar realmente com o tal gerente de banco! Mil pontos para mim!

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