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4- Vendendo roupas

Hoje meu filho mais velho vem tomar café comigo. Já faz duas semanas que ele me enrola para vir. Cada vez é uma desculpa. No fundo, não gosta de me ver num apartamento minúsculo, com uma decoração minimalista, e separada do pai dele. Família é tudo junto, disse-me uma vez. Pior que isso, é ele ver que o pai  arranjou logo outra família e a mãe não se importa com isso, além de se contentar em morar num cubículo que não dá nem para fazer uma horta para plantar cenouras e batatas.
- Oi, mãe. – diz ele, num abraço todo cuidadoso e amoroso que só ele tem – Você está bem?
- Claro que estou bem! – sempre digo isso, não importa como eu esteja. Sei, eu sei que é um defeito, mas e se eu dissesse que não estava, o que ele faria? Provavelmente diria que voltaria outra hora quando estivesse melhor. Então, deixa para lá, que estou ótima com ele ali, me olhando com aqueles olhos lindos e depois vasculhando com uma passada de olhar, todo o meu apartamento, deixando clara a sua decepção.
- Quando você vai se mudar daqui? É meio claustrofóbico.
- Eu sei que você não gosta, mas como não dorme aqui, para mim está ótimo. Fora que não preciso contratar diarista para fazer faxina. Prático.
- É. Isso é. – concordou ele – Mas, mesmo assim, se quiser dar um almoço...
- Se eu quiser dar um almoço vou à sua casa ou na do seu irmão e pronto. Todos ficam felizes.
- Certo. Agora me conta o que tem feito. Vovó me contou que você está vendendo coisas para pagar conta do banco. Que história é essa? O que está vendendo? Está trabalhando em vendas?
Céus... Minha mãe e sua grande boca, como se eu fosse uma menininha...
E lá vou eu explicar sobre a venda de coisas usadas, de uma tentativa de montar um brechó, que é só o começo, afinal muita gente estava comprando coisas usadas e eu tenho um monte, que tenho planos de mexer em culinária, talvez fazendo uma cafeteria diferente e coisa tal, e tal e coisa, dessas coisas.
- Sei.
Claro que ele sabe. Conhece a mãe dele desde que nasceu.
- De quanto você precisa para cobrir a conta?
Sabe, não é porque sou a mãe dele e me acho mais que ele, nem porque considere que eu é que tenho que tomar conta dele e não ele de mim, mas o fato é que isso me fez subir um gosto amargo na boca. O pão estava excelente, o café ótimo, mas a finalização foi fatal.
- Filho, quando eu precisar, de verdade, eu falo. Juro que eu peço.
- Você jura mesmo? – com aquele olhar que vai até o fundo da alma.
- Juro. – e fiquei torcendo que a minha alma tivesse ficado junto com o porquinho-cor-de-rosa.
- Está bem. Vou acreditar desta vez.
O caso é que ele me deu um beijo e outro abraço delicioso e foi-se. Estou sozinha novamente com a minha crise financeira e uma dor na consciência por não ter tido coragem de falar para ele que passarei cinco anos tentando pagar um valor que se triplicará e, com certeza, passarei mais cinco tentando pagar o impagável.
Resumindo, estou comendo agora outra enorme fatia de pão com requeijão e tomando outra xícara de café imaginando como sair dessa com a dignidade de uma dama de 50 e tantos anos.

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