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3- Pão sovado


Peguei o ônibus de volta para casa e cá estou eu, pensando em “voz alta” no que fiz e no que deveria fazer. No que fiz já é passado e não tem mais o que fazer. Mas, no que devo fazer daqui para frente é um mistério insondável.
Sempre tem aqueles filmes inspiradores em que a mulher sofredora vai parar num lugar chato, tipo Bali, e ali resolve todos os problemas de sua vida numa simples reflexão, com o bônus extra de um amor fantástico e cheio da grana, mesmo porque, para estar naquele lugar chato e fim de mundo tem que ter muita grana, até mesmo ela. Não é o meu caso, infelizmente. Nem mesmo sou linda! O que torna tudo contra os meus sonhos de divorciada-pensionista.
- Veja bem, querida – esta é minha mãe -, você mesma permitiu que isso acontecesse a você. Se o seu casamento acabou foi porque deixou. Agora, levante a cabeça! Você tem um potencial enorme. Não pode viver assim... assim... vendendo todas as suas coisas para... para... Por que está pondo suas coisas à venda?
- Para pagar o banco. – enquanto amassava o pão.
- Entrou no limite? – espantada, porque ela é um rigor extremo nisso.
- Claro. Como sempre. – sovando a massa.
- Precisa ser mais cuidadosa com isso. Ser mais disciplinada. Você não pode gastar o que não tem.
- Então é melhor eu me trancar em casa, fazer uma horta e comer só cenouras e batatas o resto da minha vida.
Sovei mais a massa. Com certeza o pão será um dos melhores que já fiz.

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