Sim,
eu fui conversar com o gerente do banco... Milhares e milhares e milhares de
pontos para mim.
-
Humm... Vamos ver aqui no seu cadastro...
A
impressão que eu tive é de estar frente a um porquinho cor-de-rosa engravatado
e suando horrores examinando minhas notas escolares para decidir se me mandaria
para o chiqueiro ou me liberaria um pasto ralo. Todas horríveis opções que meu
olhar embevecido, entre um piscar e outro, ia mudando a cada vez que ele
digitava alguma coisa naquele maldito computador.
-
A senhora já entrou no seu limite especial...
Claro...
Por que mais eu iria até ele? Pisquei duro algumas vezes, candidamente, com um
doce sorriso sendo esboçado.
-
Quer aumentar seu limite?
Céus!
O que ele tem na cabeça?! Certo, não são orelhas de porquinho cor-de-rosa, mas
certamente o cérebro deve ser de um. Eu não quero aumentar o meu limite. Quero
diminuir a minha dívida!
-
Não... O limite está ótimo... – sorrindo gentilmente, sem acreditar que eu
pudesse falar alguma coisa ao mesmo tempo em que estava pensando em outra
totalmente diferente. Aquele homem realmente parecia um porquinho cor-de-rosa e
eu estava imaginando como deveria ser sua mulher e filhos. Não porque ele fosse
gordo, coisa que não era, mas toda a situação me levava a vê-lo como um e
ficava imaginando como deveria ser sua vida em família, se a mulher dele tinha
conta em banco, o que comiam, idade dos filhos...
-
Que tal a senhora fazer uma aplicação conosco? Assim facilitaria na hora de
negociar um parcelamento de sua dívida.
-
Como assim? Fazer uma dívida para diminuir a dívida, ou para quadriplica-la e
viver o resto da vida endividada?
Ele
piscou duro várias vezes e pensei que fazer uma tese sobre “piscamentos” seria
interessante. Ele sorriu meio sem graça e voltou a teclar no seu computador
super moderno, infinitamente mais moderno que o meu, que ainda é de dez anos
atrás, mas que amo de paixão.
-
Bom – retomou ele, depois de limpar a garganta, e novamente o vi como um
porquinho-cor-de-rosa -, os juros não estão muito favoráveis, mas acho que
podemos fazer um negócio interessante aqui.
E,
por meia hora de um suplício em que meu corpo estava presente mas meu espírito
pairava sobre as águas de alguma praia deserta e paradisíaca, ele falou sobre
juros, parcelamentos, datas, contrato, um certo seguro, me mostrou algumas
folhas impressas que assinei sem ler, ou fingi ler, para finalmente sair de lá
com a sensação de que tinha vendido a minha alma a um porquinho-cor-de-rosa.
-
Estou com fome. – foi meu primeiro pensamento quando saí de lá, mas acho que
isso foi exatamente o que tirou de mim toda a santidade que tinha conseguido
enquanto falava com o tal gerente. Pior ainda, foi eu ter entrado na doceria ao
lado do banco e ter comigo o mais delicioso bolo de chocolate da minha vida.
Acabou-se toda a santidade e qualquer possibilidade de ser salva. Padeceria os
horrores de ter uma pensão mixuruca, contas exorbitantes, e uma vontade insana
de gastar o que não tinha.
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