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2- Cor-de-Rosa


Sim, eu fui conversar com o gerente do banco... Milhares e milhares e milhares de pontos para mim.
- Humm... Vamos ver aqui no seu cadastro...
A impressão que eu tive é de estar frente a um porquinho cor-de-rosa engravatado e suando horrores examinando minhas notas escolares para decidir se me mandaria para o chiqueiro ou me liberaria um pasto ralo. Todas horríveis opções que meu olhar embevecido, entre um piscar e outro, ia mudando a cada vez que ele digitava alguma coisa naquele maldito computador.
- A senhora já entrou no seu limite especial...
Claro... Por que mais eu iria até ele? Pisquei duro algumas vezes, candidamente, com um doce sorriso sendo esboçado.
- Quer aumentar seu limite?
Céus! O que ele tem na cabeça?! Certo, não são orelhas de porquinho cor-de-rosa, mas certamente o cérebro deve ser de um. Eu não quero aumentar o meu limite. Quero diminuir a minha dívida!
- Não... O limite está ótimo... – sorrindo gentilmente, sem acreditar que eu pudesse falar alguma coisa ao mesmo tempo em que estava pensando em outra totalmente diferente. Aquele homem realmente parecia um porquinho cor-de-rosa e eu estava imaginando como deveria ser sua mulher e filhos. Não porque ele fosse gordo, coisa que não era, mas toda a situação me levava a vê-lo como um e ficava imaginando como deveria ser sua vida em família, se a mulher dele tinha conta em banco, o que comiam, idade dos filhos...
- Que tal a senhora fazer uma aplicação conosco? Assim facilitaria na hora de negociar um parcelamento de sua dívida.
- Como assim? Fazer uma dívida para diminuir a dívida, ou para quadriplica-la e viver o resto da vida endividada?
Ele piscou duro várias vezes e pensei que fazer uma tese sobre “piscamentos” seria interessante. Ele sorriu meio sem graça e voltou a teclar no seu computador super moderno, infinitamente mais moderno que o meu, que ainda é de dez anos atrás, mas que amo de paixão.
- Bom – retomou ele, depois de limpar a garganta, e novamente o vi como um porquinho-cor-de-rosa -, os juros não estão muito favoráveis, mas acho que podemos fazer um negócio interessante aqui.
E, por meia hora de um suplício em que meu corpo estava presente mas meu espírito pairava sobre as águas de alguma praia deserta e paradisíaca, ele falou sobre juros, parcelamentos, datas, contrato, um certo seguro, me mostrou algumas folhas impressas que assinei sem ler, ou fingi ler, para finalmente sair de lá com a sensação de que tinha vendido a minha alma a um porquinho-cor-de-rosa.
- Estou com fome. – foi meu primeiro pensamento quando saí de lá, mas acho que isso foi exatamente o que tirou de mim toda a santidade que tinha conseguido enquanto falava com o tal gerente. Pior ainda, foi eu ter entrado na doceria ao lado do banco e ter comigo o mais delicioso bolo de chocolate da minha vida. Acabou-se toda a santidade e qualquer possibilidade de ser salva. Padeceria os horrores de ter uma pensão mixuruca, contas exorbitantes, e uma vontade insana de gastar o que não tinha.

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